Concepção: Eder Teixeira Texto: Pedro Ivo.
Venho de uma família apreciadora da boa música, da boa cultura. Em geral, pessoas bastante inteligentes. Hoje trabalho com arte. Tenho amigos atores, músicos, filósofos e jornalistas. Se eu fizer uma distinção, separá-los em dois grupos, seria assim: Os que amam, veneram e idolatram Chico Buarque, e os que não.
As pessoas tratam Chico Buarque como se Deus tivesse dado a ele algo que não deu a nenhum outro compositor em toda a História da humanidade. Ora, vamos… Ele provavelmente não faz seu punzinho em dó menor todas as vezes.
Uma coisa é fato. Chico é bom. Do caralho. Um compositor fenomenal. Mas não consigo (e aqui posso estar admitindo certa incompetência) enxergar além do Chico Buarque compositor. Existe uma aura de mistério (talvez o excesso do lúdico) que transforma Chico em algo além de um compositor. A questão é: O quê?
Eu estava ouvindo um amigo comentar sobre uma conversa que teve com fulana de tal. Ele parafraseou a menina: “É que Chico sabe falar a língua da mulher…” – Muito bem, ele é o Fabio Júnior da academia. Nada mal. Ponto pra ele. Outro comentário que desta vez presenciei: “Chico está além da música. Ele é perfeito.” – Ignorando o exagero, vi que fazia sentido. Sim, é verdade. Chico Buarque está além da música. E o que está além de todo bom artista? Um bom marketing.
Vamos dar o exemplo do falecido Michael Jackson. Para mim, tudo o que veio depois dele é cópia, resquício. Eu piro em ouvir Beat-it, You rock My World, Triller. Ninguém faz como ele fez. E por quê? Primeiro, o mito não deixa. Ninguém se atreveria a adotar aquele estilo. O Smooth Criminal só fica bem nele. Segundo, ele virou branco. O que valoriza o moonwalk (que ele patenteou) e os gritinhos que todo mundo ama, é a milionária equipe de agentes e promotores que bateram a cabeça para criar um personagem: O astro pop negro que ao andar para frente andou para trás e ficou branco.
Agora, Michael Jackson é menos impressionante por causa disso? Não.
Sei. Parece piada. Mas é verdade. Paulo Coelho é outro exemplo. Ele não é tão ruim assim. Não há nada que o caracterize como péssimo escritor. Vá lá que não é brilhante. Mas o fato é que Hollywood comprou os direitos de seu livro de maior sucesso para adaptar (e Lourence Fishburne quer dirigir). Agora me fale de um escritor brasileiro vivo com tal projeção. E tudo o que ele fez foi gastar um punhado de dias escrevendo o que lhe viesse na veneta e ficar meses correndo atrás de uma boa equipe de marketing. O resto é só manutenção. Cria-se uma figura enigmática (quanto menos entrevista melhor), fala que faz chover, dramatiza a biografia e pronto. Temos uma máquina de best-seller.
Isso é ruim? Nops! Shakespeare era um tremendo marketeiro e as obras são muito boas.
Bem, voltemos para o ponto:
Eu gosto de Chico Buarque. Não o tenho na minha playlist, mas não torço o nariz pra ele. Sou ator, já li Gota D’água e Roda Viva. São obras de respeito. Mas não vejo nada de hipnótico, substancialmente inacreditável ou de impossível reprodução. Deus não criou os compositores e DEPOIS Chico Buarque.
Acho que o grande segredo de Chico é ficar quieto. Todos ficam se perguntando: O que será que ele está fazendo? Voando sobre as notas? Bebericando sua cerveja enquanto pensa em outra grande canção? Hein? O que será?
É fácil montam uma imagem incrível sobre ele que, ai de mim, não sabe meu nome, minha idade, minha cor preferida. Tampouco há de saber.
E tudo porque, diferente da maioria que ama cagar na sabedoria, ele se fecha. Deixando tudo a livre interpretação.
O fato é que todo artista é (ou procura ser) único no que faz. Elvis conseguiu. Chico também. Assim como Jonh, Michael, Renato, Cazuza, Latino, Roberto Gómez Bolãnos (o Chaves), e por aí vai…
O problema é sempre a tietagem e a insistência de declararmos que é Deus aquela figura que nos representa tão bem. Se o trabalho dele é justamente esse, que seja bem feito, não? Mas, se colocarmos nesses termos, tira toda a graça, então fica como está.
Só não me venha dizer que preferir Bolãnos é algum sacrilégio.