Esse Cara Sou Eu!

     Quem me conhece sabe da enorme paixão que tenho por super-heróis. Consigo passar horas discutindo o assunto. Sou aquele tipo que, quando anda na rua, fica se imaginando saltando de um prédio para outro. Consumo, na medida do possível, tudo o que o mercado dispõe do gênero. Tenho pelo menos uns trezentos gibis acumulando pó no armário do meu escritório, e jamais pensei em me desfazer deles. Claro que também aprecio outros gêneros narrativos. Leio livros, vejo documentários, peças de teatro, filmes cult (às vezes)…

     Houve um tempo que precisei sair dos gêneros triviais (lê-se gibis mensais), e partir para esferas mais “elevadas” da arte. Estudei teatro, fiz algumas leituras dramáticas, conheci autores como Peter Weiss, Anton Tchekhov, o próprio Shakespeare, e por aí vai. Descobri coisas maravilhosas com esses caras, só que eu também cedia à pressão do meio artístico (lê-se colegas atores e dramaturgos) de gostar alucinadamente desses autores, de reverenciar genialidades e argumentar como um bom burguês todas aquelas palavras e intenções dificílimas. A troca era impossível pra mim. Por culpa minha, admito. O desonesto era eu que desperdiçava meu tempo repassando atos e mais atos que nenhum sentido ou prazer me davam.

     Então, desencantado com as plumas do teatro, passei algum tempo no limbo. Sabia que teria que contribuir com a arte de alguma forma. Afinal, havia estudado para isso. Alguns amigos da época não aprovaram meu distanciamento. Houve crítica, julgamento (é, eles dão dessas), mas nada que um dedo médio não resolvesse. As críticas foram importantes para que surgisse em mim a urgência de saber o que fazer da minha vida.

     E então, numa noite de pura reflexão, olhei para os gibis e pensei: Vai ser por aí…

     Caí matando em cima dos super-heróis, só que desta vez imbuído de técnica, prática e alguma sabedoria do que fazer com eles. E assim nasceu Caliel, um super-herói genuinamente nosso, com todos os poderes e cargas dramáticas que um personagem como ele precisa. O grande diferencial aí é que eu não queria histórias triviais. Queria épicos. Por mais que se lê os quadrinhos do Batman, não dá para se sentir íntimo dele. É um formato engessado demais. Por isso, antes que Caliel se aventurasse nos gibis, ele teria que nascer na literatura.

     Quando surgiu a oportunidade de fazer a série animada de TV, Caliel ainda lutava para se firmar na nossa cultura. E, em uma das reuniões, o idealizador, roteirista e diretor da série, MJ Macedo, botou na mesa a incógnita: Quem raios fará Caliel, o super-herói? Eu havia sido escalado para viver Igor, o protagonista.

     Meu âmago se retorcia para dizer: Eu! Eu! Eu! Uma voz ecoava no ouvido: Vai lá! É a tua chance! Pega, pega! Mas a razão dizia: Não. Tu tá com trinta e três anos na fuça e já tem o protagonista na mão! Tome jeito e fica de boa aí. – Então, selecionei os atores que poderiam ser o nosso herói. Poucos foram chamados e todos se saíram muito bem. Era escolher e pronto. Mas aí, numa tarde dessas, minha mulher me pegou pela orelha e perguntou: Você está louco pra fazer o Caliel, Pedro. Por que não faz?

     Ah, seria petulância demais eu achar que poderia viver um super-herói. Mas, espera. Olha eu ali sendo desonesto de novo. Quer fosse petulância ou não, Caliel saiu de mim. Ninguém conhece sua personalidade instável como eu. Ninguém sabe como os poderes reverberam dentro do seu corpo como eu sei. Então, que mal havia? Felizmente, todos concordaram e, com as graças divinas, Igor ficou nas mãos do excelente ator Renato Scarpin (uma grata surpresa para nós). Quanto a mim, precisei malhar para ficar digno de Caliel. Claro. Mesmo que pouco, todo herói precisa de músculos. E o resultado você vê embaixo.

     Esse texto todo é só pra dizer que, se São Paulo precisa de um super-herói, esse cara sou eu.

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