A Queda e o Descontorno Parte 1

– Não me venha falar de pessoas perigosas! Você não tem uma carinha muito dócil.

– De fato, mas isso não tira minha razão. Eu me preocupo com você.

Ela hesitou um instante. Descruzou a perna e esticou o pescoço na minha direção.

– Mesmo?

O cheiro doce do seu perfume se confundiu com o hálito embriagado do conhaque. Desviei o olhar um segundo.

– Bem, não mais do que seus pais um dia já se preocuparam, mas, sim.

O pescoço retraiu delicadamente uns dez centímetros, como se impelido pelo bufar cansado.

– Cara, você acabou de perder a maior chance da sua vida de ser legal.

– Por quê?

– Por que o quê?

– Por que você precisa que eu seja legal com contigo?

– Eu não preciso… Só gostaria muito.

Naquele momento, um pássaro piou numa gaiola e um velho deixou escapar sua tuberculose na outra ponta do bar. Eu estava numa cidade que nem lembrava o nome, num tradicional depósito de bebidas, às tantas da madrugada, totalmente desenganado, e estava prestes a enfrentar um pequenino dilema: Enganar uma pessoa que estava desesperadamente a procura de uma ilusão só para levá-la para cama ou resignar-me ao meu ridículo senso de honestidade e “dizer o que eu realmente penso”. Bom, ela estava pronta para pedir a terceira dose. Não tinha muito tempo pra decidir. Viver sob pressão mata o homem. Então, improvisei e fiz o que faço melhor. Escapada.

– Olha, Vitória… Você me acompanhou desde São Paulo. Ouviu minha história. Não sei qual tipo de história romântica pode estar passando pela sua cabeça, mas estou certo de que ela não tem lá muito a ver com a realidade. Não estou interessado em ser legal contigo só porque você quer ou precisa disso. Eu vim em busca de isolamento.

– Encontrar seu eixo, você falou. Mas você não precisa ser grosso.

– Bem, só estou sendo direto.

– Você é sempre assim?

– Acredite, não.

– Estou ficando cansada desse bar. Estamos aqui há duas horas.

– Bom, a gente pode levar uma garrafa.

Caminhamos os quatro blocos de volta para o hotel, pela praça desértica praça central, ao semi-tons das cigarras. Fazia frio. Logo, deixou de fazer.

Aquela foi a primeira noite. As outras que vieram depois desta são as que justificam essa história.

Continua…

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