
Tome cuidado! Não se deixe infectar.
Sobre a Não- Pessoa
Por Pedro Ivo.
Vamos fazer um movimento a favor da não-pessoa! Ora, onde já se viu? Se já não bastasse todas as formas de preconceito que já existem, ainda temos que tolerar mais essa? Pois eu digo que não! Vamos dar espaço para que as não-pessoas andem em paz e respirem!
E daí que a não-pessoa anda de forma incômoda? Deixa andar.
E daí que a não-pessoa fala de forma incômoda? Deixa falar.
Nós, pessoas, temos que dar o exemplo. Nos mostrar compreensíveis e solidários a essa desprivilegiada minoria. Afinal, somos civilizados. Somos sadios. Elas não.
Temos que mostrar a elas que nossas fórmulas funcionam. Que ficar quieto, viver suas vidas e ser feliz sem motivo nenhum, sem dar satisfação ou aviso, é, sim, contraproducente e errado. Mas temos que fazer isso com calma. Não descartando essa espécie incompreendida, mas, sim, catequizando-as aos nossos termos tão mais refinados e evoluídos.
Sim, eu também me incomodo quando encontro uma não-pessoa. Não gosto quando ela deixa de me agradar com mentirinhas e sorrisinhos. Eu penso: “Todos fazem isso! Por que ela não?!?” – A não-pessoa tem a plena convicção de que vai me fazer bem falando só a verdade. Ora, o que ela sabe sobre a verdade? Tudo o que eu quero às vezes é só um elogio, uma frase certa e bem colocada. Não me venha com verdades o tempo todo!! Mas, a não-pessoa insiste. E por isso é deixada de lado pela nossa impecável sociedade.
É impossível prolongar uma conversa por mais de dez minutos com uma delas. Não demora muito e já começam a cantar. É. Cantar. Do nada. Pra ninguém. Sem motivo algum. Mas temos que ser fortes e dizer a elas que cantar pra ninguém é… desconcertante, vazio, de um absoluto despropósito.
Pouco adianta. Logo, lá estão elas, cantando e rindo.
É, eu sei. Você se pergunta: “Para que rir se não há piada?” Eu também não entendo. Mas, insisto, é necessário toque, finésse e diplomacia com essa gente. Precisamos das não-pessoas como aliados, não inimigos. Porque, pense, quantas não-pessoas existem próximo de você? Pode ser seu chefe, sua mãe, uma “pessoa” com quem você divide as contas e o teto. Algumas até tentam esconder sua não-genética, mas é só olhar nos olhos. Todos eles têm olhos brilhantes.
Sonho com o dia em que pessoas e não-pessoas possam conviver juntas, cada uma no seu canto. Espero um dia poder compartilhar idéias incríveis com uma não-pessoa sem que eu tenha que ouvi-la falar. Que Deus, o Criador, seja clemente a nossas virtudes e nos dê a chance de mostrar a elas que o caminho é um só. O nosso.
Enquanto isso não acontece, vamos nos fortalecer enfatizando nossa elevada sabedoria e filosofia que diz que o certo é o certo e o errado é o errado.
Mas trate-as bem. Seja melhor.
Porque, até onde consta, a não-pessoa também é gente.
Dúvidas, críticas ou sugestões: allkair@gmail.com
For you…
Quero que dance em todos os palcos. Que recite as maiores falas.
Que você não vá, mas, se for, volte. Se não voltar, terá voltado ainda assim.
Desejo que seu castanho, ora tão escuro, ora tão claro, lhe ofereça a lágrima mais sincera. Porque, quando chora, assim mesmo virada pra parede e com as mãos sob o nariz pontudo, seu corpo arqueia com a perfeição. E perfeição só tem a ver com verdade.
E saiba que é sempre um prazer.
Ando distraído, passando a maior parte do tempo ligado no automático. Sinto fome, como. Sinto sede, bebo. Quando vejo alguém se aproximando, elaboro um roteirinho já sabendo como será o começo, meio e fim da conversa. Me torno impessoal.
Ando pensando em átomos. Átomos… Vê se pode. Que porra é essa de pensar em átomos? Quando estou nas apresentações, dizendo o texto com a intenção ensaiada e tudo mais, minha cabeça viaja para outro camarim. O fato é que quase nunca estou onde deveria. Me dedico a resolver mistérios que não existem. Penso em construções enquanto como um pastel.
2008 acaba estranho. Talvez tão estranho como começou. Uma espécie de confusão indistinta paira por sobre a aura das pessoas. E eu (como já disse, impessoal) só observo. É o tal jogo da vida. Amor versus razão, objetivos versus desejos. Parece que tudo vem acompanhado com um preço grande demais pra pagar. Se seguirmos o coração, perdemos. Se seguirmos a cabeça, idem. Bem, não precisa ser assim.
No meio deste caos todo, acho que encontrei uma sombrinha fresca. Sigo os dois, domo os dois, venero todos os erros e acertos e acho, sinceramente, que assim eu vivo feliz.
Primeiro, me pergunto: Se não estou vivo para realizar sonhos, para que mais existo? Preciso deles. Meus sonhos dão cor e sentido pra minha vida. Daí, invoco a razão que, quando espremida direito, me diz exatamente o que fazer, com quem falar para realizar, ainda que de pouco em pouco, tudo o que o coração pede.
Mas isso é viver. As emoções e sensações todas se chocando, as paisagens, os gostos e as conversas.
Mas às vezes me encho e saio de cena. Vou lá pra cima. Sobre tudo, estou inteiro. Sozinho, é verdade, mas inteiro. Sendo eu mesmo e não o que pensam que sou. É estranho imaginar que dentre tantas pessoas que me conhecem, só uma ou duas sabem com exatidão quem eu sou. É de estranhar que tudo sempre correu bem assim.
A amplidão do horizonte, o frio que quase queima minhas orelhas e o lacrimejar dos olhos a cada looping… Isso sou eu. O resto é só o que dizem por aí.
Feliz natal, boas festas e um estonteante 2009 pra você.
3virgula14.site@gmail.com
Outrora, um Encontro
Com ela o tempo passou como um piscar daquele olhar caído de tão profundo. A tratei como se trata alguém de muito tempo. Com intimidade jocosa, gentilezas espontâneas e perguntas que não faço a estranhos.
Eu a conheci semanas antes daquele encontro. Sem falar, sem nem dizer nada, nem com as mãos. Distraí minha atenção um momento e lá estava ela, com os braços e pernas cruzados, olhando para mim como quem diz: “Ei, te achei! Que tipo de cara estranho é você?” – Sorri silenciosamente de volta como quem respondesse: - “Do tipo que faz sorrir.” – E não é que ela sorriu?
Depois de algum tempo, petrifiquei minha atenção naquele corpo branco, pequeno, de franjas pretas e retas e olhar infinito. (vou falar muito daquele olhar) – fiz então o que todo homem na minha posição faz. Escrevi qualquer coisinha engraçada para justificar meu número de telefone e meu e-mail num guardanapo, inventei um personagem e fui até lá entregar. Minha atuação foi péssima, mas me dêem um desconto. Eu estava encantado.
Dias, semanas, (acho que um mês) se passaram. Vi então tantos crepúsculos quanto qualquer um que neste período de tempo não morreu. A guria misteriosa, neste tempo, quis me conhecer virtualmente. Papo furado, fotos, essas coisas… Mas não pensava nela. Pensava no olhar que ela tinha. Pensava no que ele me dizia. Não queria aqueles dedos que digitavam, queria o que tinha dentro. Mas eu queria demais. Ela já tinha com quem viver. Tinha namorado. Não um meio, ou um quarto de namorado, e, sim, um inteiro. Não tive como não invejá-lo, mas o fiz por pouco tempo, afinal, sou um cara da vida, da estrada, da celebração e do trabalho. Não se luta pelo amor. Ou tem, ou não, certo? Aquele era um rapaz de muitíssima sorte.
Mais algum tempo se passou e meu contato com a garota não era mais um contato. Uma ou duas palavras que estimulavam coisas impossíveis. No more, no less. Eis então que, graças a uma brecha dada por ela, resolvi me desafiar. Afinal, fosse o que fosse, eu tinha de saber. Mistérios são legais, mas, como toda boa visita, se fica muito tempo, perturba.
Nos encontramos recentemente. Ela vestia um vestido preto simples, que mostrava os ombros coloridos pelas tatuagens e um delicado par de sandálias. Cortara seu cabelo também. Ficou, além de linda, menos frágil com aquele corte. Era a mulher que eu esperava ver e que eu sabia que existia naquela guria. O olhar? Bem, foi mais assustador do que da primeira vez. Aquilo não tinha fim! Parecia me engolir. Mas revidei. Também sei como olhar.
Constrangidos, mas firmes, sentamos num bar próximo. Pedimos suco e falamos sobre a vida como ela é e como gostaríamos que fosse. Descrevemos nossos gostos sexuais como se falássemos de nossos times preferidos. Projetamos futuros estranhos com filhos, casa, carreira e manias. Tudo muito cuidadoso para não cruzarmos esses futuros. Ao menos, não declaradamente. Ela mencionou que adorava o próprio cheiro. Eu falei sem parar sobre qualquer coisa que me viesse a mente. Nervoso, eu? Claro que não.
Brincamos com nossas mãos por um instante. A minha sempre quente, a dela sempre fria. Ela retraiu quando percebeu que queria seus dedos nos meu pescoço. Fiz uma mágica que deu errado, só para descontrair. A fiz sentir-se bem. E isso me bastava.
Quando anoitecia, percebi que não me adiantaria nada manter o controle e disse que queria um beijo. Não precisei de coragem. Queria mesmo um beijo. Ela sorriu e disse que também queria, mas que não podia. Muito além de uma mera questão moral. Acho que ela ama mesmo aquele rapaz. Mas, com tudo aquilo acontecendo com nós dois, um beijo seria só um belo símbolo. Ela me queria e isso já bastava para que me beijasse. Mas isso não aconteceu.
Deus sabe como fui forte para manter meus átomos longe dos dela. Éramos como dois buracos negros querendo se engolir. Olhava para as pintas em seu decote comportado e imaginava meu rosto contorcido naquela superfície macia. Vou lhe dizer… Aquilo foi difícil pra mim.
Naquela magia meio boba e meio sádica, perdi cinco horas. De repente, era quase meia noite. Não notara as pessoas sentando e saindo ao nosso redor. Decidimos ir embora.
Quando vi meu ônibus chegando e eu tão distante do ponto, senti o impulso de agarrá-la num beijo heróico antes de sair em disparada e, no momento de fazê-lo, resignei-me a um covarde e, talvez por isso, romântico beijo no rosto. E essa foi a primeira e única vez que a toquei com certa força. Depois corri.
Hunf! Eu merecia o beijo que queria.
E acho que é essa uma das visões que ela guarda de mim. Eu me afastando rápido e patético.
Depois disso eu acordei.
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Me Cace, If You Can!
Ontem eu corria. Queria melhorar a marca de treze minutos, então peguei pesado na subida e mantive a força na descida. Sentia toda minha musculatura funcionar perfeitamente, como uma máquina de correr. Sentia atrás dos olhos todo aquele O- bombando para o cérebro e para os braços em jatos explosivos. E a saliva da minha boca engrossava.
De repente voei. Aumentei a velocidade e quis competir com os carros. Não senti falta de ar, não senti dor. Quanto mais rápido eu estava, mais rápido eu achava que podia ir. E ia. Atrás, eu deixava todas as pessoas da minha vida, tudo o que eu sei, todas as minhas coisas e respostas que lutei tanto para conseguir. Logo adiante, tudo o que ainda não sei me esperava. Todos os mistérios. Todos os novos medos e coisas que acho não haver nome ainda.
A cada esquina, uma escolha. A cada reta, uma rotina. Lembra quando eu disse que nada para mim de fato importa? Bem, para mim nada de fato importa. Mas, peralá! Isso não quer dizer que eu não importe, sacou?
Na segunda volta, percebi uma coisa meio triste. Eu sabia onde cada rua terminava. Não tinha mais segredos. Então, parei de correr e sentei na guia. Meu corpo ainda pulsava me mandando mensagens: “Vamos! Não demore!”. Tudo o que era passado estava me alcançando: “Não posso ficar atrás de tudo o que eu já sei e que eu já vi.” – E, rápido como um relâmpago voei novamente, e preferi não ser tocado por mais nada além do vento e do vácuo que eu causava.
E essa é minha escolha. Só o novo me interessa.
E meu coração? Ora, ele é ocupado demais me mantendo veloz. Deixe-o como está, do jeito que é. Quem me quiser que me acompanhe, que me pegue ou me alcance. Me cace.
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RELATÓRIO
Hoje eu andei e deixei a chuva entrar. Permiti que minha boca, meu rosto inteiro fosse beijado pelo vento, pela água… Se Deus existe, ela sabe como beijar.
Hoje eu quis o abraço do frio e os conselhos tão acertados do banho quente. Hoje eu quis ficar sozinho com todas as coisas do mundo. Com o vidro sujo que limpei, com a pilha de louças e as intermináveis conversas com ninguém.
Hoje eu quis que tudo terminasse rápido, só para que eu tivesse vontade de fazer tudo devagar amanhã.
Hoje eu acordei com a voz da minha mãe. Ela ligou para saber como eu estava e, depois que desligou, quis que ligasse de novo. E ela ligou. Por uma outra razão, é verdade, mas sorri o dia inteiro por isso.
Hoje eu quis me apaixonar. Fazer um jantar romântico, ouvir Tracy Chapman ao cheiro de molho branco, vinho tinto e um longo e demorado beijo novo. Depois, criaria o clima ideal para dizer: “Sem você, a minha vida é um rascunho infantil do Sol, da casa, da montanha e da árvore feliz.” (Declaração estranha, né?)
Hoje a minha raiva ganhou ares de turbina. Me levou até a coragem mais próxima e me desafiei olhando no espelho e com dedo em riste: “Você é mais rápido do que eu?”
Hoje eu descobri que sou uma pedra preste a explodir em magma. E percebi que tudo aquilo que mais importa pra mim não tem, de fato, a menor importância.
Hoje eu vi meu futuro e debati com ele algumas mudanças. Por que não me casar? – Perguntei. Ele respondeu: – Com quem? Do que você está falando?
Falando nisso, hoje pensei menos em sexo.
Ah, importante! Hoje fiz uma reunião com as pessoas mais importantes da minha vida. Estavam todas ali, na minha cabeça e ouvindo umas verdades que há décadas eu quero dizer.
Hoje eu não ganhei na loteria, nem na raspadinha. Mas quem sabe amanhã.
Hoje pensei em como será o domingo de dias dos pais sem o meu na minha casa nova. Espero que ele ainda se lembre de mim.
Hoje o céu ficou grafite no meio da tarde. Depois choveu e foi aí que deixei a chuva entrar em mim e tudo isso aconteceu.
Hoje foi um bom dia, apesar do mal tempo.
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O Velho, a Bíblia Paulista
Outro dia eu estava andando pela Paulista. Era por volta das 14:47 e fazia uma tarde ensolarada demais para um dia de inverno.
Distraído com qualquer coisa que me passava pela cabeça, vi um senhor parado à beira da calçada esperando uma oportunidade segura para atravessar a movimentada avenida. Ele vestia trajes simples, com uma calça social azul quase marinho, visivelmente desbotada e um paletó da mesma cor todo surrado nos ombros. Faltava um ou dois botões para esconder a camisa branca com listras finas e modestas, cuja gola parecia querer serpentear para fora do paletó em dobras dignas de uma obra de origami. Entretanto, nada disso era tão surpreendente quanto seu impecável par de sapatos marrons claros que, apesar de ferir gravemente a harmonia das cores, refletiam o Sol em tons de prata quase enigmáticos que ornavam com os raros fios brancos de sua cabeça lisa e igualmente lustrosa.
Não pude, infelizmente, observar suas expressões por estar sem meus óculos e por causa da relativa pressa que meus passos não paravam de simular. Mas era possível reparar que carregava um livro, quem sabe um livreto, preto e de capa dura, provavelmente couro, fechado com um zíper prateado.
Ele olhou para esquerda, calculou a distância do carro mais próximo e se sentiu ágil o bastante para atravessar a avenida com segurança. Quando deu seu terceiro passo adiante, eu já estava perto o suficiente para, quem sabe, descobrir o cheiro que ele tinha, mas eis que algo de engraçado aconteceu. Incomodado com o Sol, aquele senhor levantou seu livreto para cima da testa, há não mais que dois palmos de distância, para proteger seus olhos já cansados e suas bochechas rosadas e enrugadas. O que me surpreendeu foi o brilho, desta vez dourado, que reluziu daquele livreto preto. “Bíblia Sagrada”. Ofuscante e negra Bíblia que protegia aquele simpático senhor.
Quando enfim passou por mim, por um instante seus olhos miúdos e azulados cruzaram com o meu. Como prezo o olhar das pessoas, registrei aquilo como uma foto. Por um pouco mais que um minuto, quis desesperadamente ser aquele par de olhos azuis. Quais os segredos, as imagens e tantas coisas aquele senhor agora frágil já descobrira quando mais saudável? Enfim, deixou um rastro de suor e mofo. Azedo, sofrido e tão triste quanto o azul desbotado de suas roupas e o marítimo azul de seus olhos. Assim, dessa forma, nossos caminhos se separaram no meio da avenida. Senti falta daquela composição estranha de brilhos o resto da tarde.
Minutos mais tarde, eu tomava um café e aguardava aquela que seria minha mais nova companheira de trabalho e de papos perdidos. Mas alguma coisa me mantinha com os pensamentos naquele senhor. Talvez os detalhes, ou a imagem como um todo daquele azul feio e desconjuntado que erguia a bíblia para o alto, não sei… A imagem ficou para mim como um símbolo. Um prelúdio, quem sabe. Algo que diz “Cuidado onde pisa, garoto, e olhe para atravessar a rua”.
Enfim, o fato é que alguma coisa naquele dia me pegou de jeito e talvez eu esteja envergonhado demais para admitir. Desde então, sinto como se uma brisa gelada cantasse na minha nuca para somente (e tão somente) arrepiar meus pêlos do braço. A sensação é maravilhosa.
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No apartamento novo o ar é diferente. Tem cheiro de perfume de mulher e incenso. E é um pouco mais rarefeito, também. Difícil foi me acostumar com o silêncio e as paredes tão brancas, mas agora já consigo lidar. E há algo que se move dentro delas, das paredes. Não sei o que é, mas sei que se mexe.
Da sacada do décimo terceiro andar vejo um horizonte fragmentado. Um desconcerto, certa deselegância cinzenta. Não é um horizonte amplo, não, mas tem suas brechas.
Tem uma escola primária logo abaixo onde é possível ver uma infinidade de fedelhos, que mais parecem pontinhos, partículas rebatendo-se umas nas outras e contra as paredes, correndo entre as trocas de aulas.
Estou bem instalado e bem localizado aqui nos confins da Lapa. Entre duas estações de metrô e uma de trem. Sopinha no mel.
Ando ouvindo algumas músicas, procurando aquela que represente mais adequadamente esta fase. Ainda não me decidi entre Gun´s n Roses com Knocking On Heaven´s Door, e Cat Stevens com Father and Son. Ambas bastante significativas para mim.
Os amigos deram uma afastada, o que deve ser um movimento natural. Eu achava que a idéia de morar em um apê, com um pouco mais de liberdade e aconchego, pudesse aumentar o trânsito de amigos, principalmente os mais chegados. Mas isso até o momento não aconteceu. Acho que acabo de entrar para um novo grupo de pessoas. Os solitários verticalizados da Capital.
Bom, seja o que for, que seja. Estou encontrando um tipo diferente de identidade e tudo está acontecendo conforme o planejado (ainda que não esteja).
Estou atualizando o 3 vírgula 14… Acessem, divirtam-se e comentem.
A Mudança
Agora eu posso ver com clareza todos os pequeninos pedaços de mim. Encaixotando minhas coisas para mudança, ao som das músicas que mais gosto, surfei em enorme onda nostálgica. Chorei um pouco, recolhido atrás da porta. Depois dancei para todas as pessoas que amo, como se elas estivessem ali me olhando. Meu pai aparecia nos meus pensamentos com um sorriso orgulhoso e repleto daquelas recomendações.
Todas as cartas, as pilhas de esboços, textos e tudo o mais que eu guardo em plásticos, agora formam uma pilha única, ao lado dos meus 258 gibis e 12 livros. Apesar do medo tão natural, olhei para tudo aquilo que eu tenho e vi quem eu sou. Olhei como se olhasse pela primeira vez para aquela mistura de pôsteres nas paredes do meu quarto. Modigliani divida seu espaço com Batman, Demolidor e dezenas de coloridos postais publicitários pregados em telas de cortiça. Agora é só uma parede de azulejo marrom e branco. Mais limpa e fria, mas a agradeci pelos quase dois anos de acomodação e segurança.
Embaixo da cama, três objetos esquecidos e para lá de empoeirados. Um lápis 6b, uma pulseira amarela e um solitário chinelo sem par jaziam próximos a parede.
Era um quarto pequeno onde cabiam todas as minhas coisas. Percebi que me acostumei ao pouco espaço e que temia, portanto, qualquer coisa maior. Não me envergonho do medo. De forma alguma. Sou mais do que capacitado para enfrentar qualquer tsunami que a vida me traga “lá fora”. O mais importante é que, quando apaguei a luz e fechei a porta pela última vez, abandonei tudo o que era receio e sorri confiante, porque, claro, a menos que não dê, tudo vai dar certo.
Só Sonho…
Por Pedro Ivo.
Ontem senti o ouvido zunir um agudo. Percebi uma sutil pressão na testa. Eu estava de ponta cabeça. Dormindo com metade do corpo para fora da cama.
De repente, lá estava eu numa espécie de máquina voadora com painéis luminosos. Passava por cidades de arquitetura impressionante e rasgava céus de cores que iam do verde ao mais tenro e caloroso vermelho. Metade de mim dizia que aquilo não era real. Outra metade não se importava. Sempre me relacionei bem com tudo o que existe e não existe.
Acordei novamente me sentindo um pouco sufocado entre o travesseiro e edredom. Girei meu corpo debaixo do lençol e ele se enroscou nos meus pés. Ouvi alguém fora do quarto caminhando para lá e para cá. Olhei as horas no meu celular. 05:36am. Levantei-me desorientado e abri metade da porta na intenção de talvez repreender quem estivesse atrapalhando meu sono, mas não vi ninguém, só meu gato, Osho, deitado num canto do corredor.
Um suspiro levou a um bocejo nos três passos médios que precisei dar até a cama. Senti um gosto ruim na boca. Algo como doce de jabuticaba. Entrei debaixo do lençol e do edredom sem saber direito no que estava pensando. Logo adormeci.
Era um vasto e iluminado campo de gramas fluorescentes. O céu era carregado de insetos estranhos e gigantescos que faziam um som tão ensurdecedor quanto fascinante. Tirei o tênis e a camiseta. Deixei-os sobre uma pequena rocha laranja para não perde-los de vista mais tarde, e comecei uma interessante caminhada.
Era psicodélico demais aquele cenário, eu sei. E eu sempre tão careta, me perguntava se por um acaso eu não tivesse invadido o sonho de alguém. Tentava cantar alguma música, coisa que faço com freqüência quando estou sozinho, mas nada me vinha. Nem um assovio. Nada. Eis então que, ao descer uma pequena colina que dava para o mar, senti a grama escorregadia. Antes de desequilibrar apoiei-me no chão. Essa com certeza não foi uma manobra feliz, porque meu corpo passou a deslizar rapidamente. Usava os calcanhares e os dedos das mãos na inútil tentativa de frear, ainda que um pouco, a queda, mas parecia que o atrito simplesmente não existia. O contato com a água daquele mar estranho era inevitável. Bem, ao menos era o que eu pensava. A água que batina na base da colina abriu-se em uma redoma seca e deslizei para dentro de um buraco.
Acordei meio assustado e meio risonho. Adoro sonhos assim. Olhei para o relógio do celular. 07:42am. Estiquei-me até encostar a cabeça na cabeceira da cama e levantei. Fui ao armário das toalhas e pequei uma toda branca com o desenho do Mickey. Comecei meu dia com um toque de água quente e me perguntando até onde iria aquele buraco.
Quem sabe amanhã à noite?







Bendita chuvinha, não?!
Beijo*
muito bons…todos!
mas o velho, a bíblia paulista…não só pelo tema rsrs…é visual demais e muito sentido…lindo, lindo.
que Deus te revele cada vez mais maravilhas, como sempre revelou. Escreve que escreve, hein?
beijos
É…….